sábado, 19 de julho de 2025

E se for aqui?

 

Eu me procuro em olhos que não são meus.

Deslizo na pele alheia como quem tateia

Um mapa furado,

Uma rota em ruínas.


E não me basta, é uma busca incessante,

E na superfície dos olhos apenas deslizo,

Mas não aprofundo.

E sigo pelo caminho …


Quero me encontrar …

Mas não sei onde me perdi.


O que houve?

Por que meu corpo foi esquartejado?

Talvez tenha sido naquele like,

Naquela espera por resposta,

Naquele corpo que me desejava sem ver

Quem tremia dentro da carne.


E no ato de unir as partes,

de costurá-las, é tão doloroso…

O corpo foi esquartejado para atender...

Necessidades que não fazem parte de sua natureza!


O mundo me diz:

"Seja melhor."

"Seja bela."

"Seja forte."

"Seja agora."

“Seja perfeita”

"Se comporte assim"...

Mas nunca: seja só.


E na solidão do caos do quarto, fico.

Estar só assusta.

Estar só revela.

Estar só acalma.

Estar só faz doer.


E se doer for o preço de me achar?

E se o encontro não for um êxtase apenas, mas também for queda?


A vida é dor, é prazer… 

Por isso, aqui se deu de forma orgânica,

Para sentirmos o peso do valor da vida,

Para sentir a dor e o prazer do desejo.


E talvez isso seja o significado:

Sentir,

Deixar a dor habitar,

Entendê-la,

Respirá-la,

E liberá-la,

Seja na saudade, no choro…

Mas liberá-la… 

Para continuar seguindo o caminho do corpo.


Dizem que o amor salva.

Mas o que me salva é a pausa.

O silêncio entre dois toques

O momento em que não preciso caber.


Porque às vezes,

O que mais me cura

É o que mais me escapa:

Me olhar no espelho e não fugir.


Já não quero mais me consumir no desejo do outro.

Quero que o desejo me consuma de dentro,

Feito brasa lenta,

Feito corpo que sonha.


Hoje, decido ser

O terreno que habito,

Mesmo rachado,

Mesmo deserto.


Pois só quem acolhe o próprio vazio

Pode dançar com a própria sombra

Sem sentir culpa.