Eu me procuro em olhos que não são meus.
Deslizo na pele alheia como quem tateia
Um mapa furado,
Uma rota em ruínas.
E não me basta, é uma busca incessante,
E na superfície dos olhos apenas deslizo,
Mas não aprofundo.
E sigo pelo caminho …
Quero me encontrar …
Mas não sei onde me perdi.
O que houve?
Por que meu corpo foi esquartejado?
Talvez tenha sido naquele like,
Naquela espera por resposta,
Naquele corpo que me desejava sem ver
Quem tremia dentro da carne.
E no ato de unir as partes,
de costurá-las, é tão doloroso…
O corpo foi esquartejado para atender...
Necessidades que não fazem parte de sua natureza!
O mundo me diz:
"Seja melhor."
"Seja bela."
"Seja forte."
"Seja agora."
“Seja perfeita”
"Se comporte assim"...
Mas nunca: seja só.
E na solidão do caos do quarto, fico.
Estar só assusta.
Estar só revela.
Estar só acalma.
Estar só faz doer.
E se doer for o preço de me achar?
E se o encontro não for um êxtase apenas, mas também for queda?
A vida é dor, é prazer…
Por isso, aqui se deu de forma orgânica,
Para sentirmos o peso do valor da vida,
Para sentir a dor e o prazer do desejo.
E talvez isso seja o significado:
Sentir,
Deixar a dor habitar,
Entendê-la,
Respirá-la,
E liberá-la,
Seja na saudade, no choro…
Mas liberá-la…
Para continuar seguindo o caminho do corpo.
Dizem que o amor salva.
Mas o que me salva é a pausa.
O silêncio entre dois toques
O momento em que não preciso caber.
Porque às vezes,
O que mais me cura
É o que mais me escapa:
Me olhar no espelho e não fugir.
Já não quero mais me consumir no desejo do outro.
Quero que o desejo me consuma de dentro,
Feito brasa lenta,
Feito corpo que sonha.
Hoje, decido ser
O terreno que habito,
Mesmo rachado,
Mesmo deserto.
Pois só quem acolhe o próprio vazio
Pode dançar com a própria sombra
Sem sentir culpa.