Quando o match cansa
Abro o app. Vejo uma fila de avatares repetidos: abdômens editados, paus duros de farmácia, legendas que prometem dominação ou submissão, mas quase nunca presença. O jogo é conhecido: “ativo”, “passivo”, “dotado”, “discreto”. Uma pornografia automatizada que se disfarça de encontro. Corpos que se desejam sem se escutar. Desejos que se fingem intensos, mas seguem o script.
Eu? Não sou esse tipo de filme. Sou corpo que dança entre o riso e o risco. Não performo macho, nem aceito a submissão como destino. Sou não-binárie, de desejo fluido. Me movo no campo do sensível, do riso, da pausa, do toque que não tem nome. Não me interesso por ereções que duram 24h, mas por presenças que duram mais que uma transa.
Nos aplicativos, percebo o quanto o sexo virou vitrine, o quanto os corpos foram treinados a funcionar, e não a sentir. O pau tem que subir como botão de elevador. A bunda tem que estar disponível, dura e muda. O gozo tem que chegar rápido. O mistério, esse sim, deve desaparecer. E eu, que vivo do mistério, sou ameaça.
Mas isso não acontece só nos apps. Vivemos num sistema que transforma tudo — inclusive o desejo — em mercadoria. O capitalismo molda os corpos como produtos prontos para o consumo. Cria o corpo ideal: musculoso, performático, com pau grande ou bunda grande, cis, jovem, padrão. E vende esse corpo como se fosse o único com direito ao prazer. O sexo vira um privilégio dos corpos “aptos”. O resto? Fica fora do catálogo.
O desejo se torna um mercado. E como em todo mercado, só quem tem capital entra no jogo: capital corporal, capital estético, capital sexual. Os outros — os gordos, os racializados, os dissidentes, os velhos, os fora da curva — são empurrados para a margem, como se não pudessem desejar, como se não pudessem ser desejades.
Este texto nasce do desejo de criar fissura nesse sistema de performances cansadas. De abrir espaço para o desejo como experiência viva — não como produto. De dizer, com o corpo inteiro: não sou seu pornô de bolso.
O mercado dos corpos
O sexo, que deveria ser encontro, virou vitrine. Nos aplicativos, deslizar o dedo para o lado é um gesto de consumo. É como escolher um produto num mercado. As descrições são etiquetas: “ativo, dotado, másculo, limpo, sem frescura”. O corpo virou mercadoria e o desejo, algoritmo.
O capitalismo aprendeu a lucrar com tudo, até com a forma como sentimos tesão. A pornografia industrializada ensinou a coreografia do prazer como uma sequência obrigatória: beijo, oral, penetração, gozo. Sempre nessa ordem. Sempre com os mesmos corpos. Sempre com a mesma atuação. A mesma cara de prazer fingido, o mesmo corpo que não sua, não ri, não falha. Performance de um gozo que não é vivido, é repetido.
E quem foge desse script? É apagado, silenciado, rejeitado ou fetichizado. Corpos fora do padrão – corpos gordos, pretos, trans, efeminados, envelhecidos, dissidentes – são tratados como exceção ou como aberração. E o pior: muitas vezes nós mesmos aprendemos a nos excluir. Interiorizamos a lógica do mercado. Achamos que não temos o corpo certo para gozar, para ser tocade, para ser escolhide. O sistema nos treina para desejar o que nos despreza — e a recusar o que poderia nos libertar.
Essa organização do desejo não é natural. Ela é construída. Ensinaram que pau duro é sinônimo de virilidade. Que quem penetra tem que ser másculo, e quem é penetrade tem que ser submisso. O sexo virou hierarquia: quem fode vale mais do que quem sente. E o gozo, em vez de festa, virou meta de produtividade.
O corpo, nesse sistema, tem que funcionar — como uma máquina. Tesão virou desempenho. Ereção virou prova. A sensibilidade virou defeito. E o prazer... o prazer real, aquele que se reinventa, que experimenta, que falha, que ri... esse foi esquecido.
Entre o risco e o riso: o desejo como experiência
Desejo não é roteiro. É risco, surpresa, silêncio, caos. É riso no meio do toque, é errar o tempo e rir junto. É falhar o pau, gozar na conversa, parar no meio e descobrir outra coisa. Desejo é acontecimento – não tem que seguir manual.
Meu corpo não cabe na pornografia de bolso. Não sou máquina de tesão. Não sou botão de gozo instantâneo. Meu corpo é território sensível. Gosta do cheiro, do tempo, da troca sem obrigação. Às vezes a penetração acontece; às vezes não. Às vezes só o olhar penetra. Às vezes o toque é com o dedo, com a voz, com o joelho. Gosto do sexo que é caminho, não destino. Do que não se apressa, do que se escuta, do que se reinventa ali, na hora.
É nessa escuta que mora o que me excita. Quando o outro está presente de verdade, e não apenas representando um papel. Quando o corpo não está performando “ativo” ou “passivo”, mas se deixando afetar, vibrar, vacilar. O sexo mais intenso que já vivi não foi com penetração, foi com entrega. Foi com riso. Foi com cuidado. Foi com espanto.
Esse modo de viver o desejo é também um modo de resistir. Resistir ao consumo dos corpos, à lógica do desempenho, à brutalidade das performances que só repetem o que já foi visto. Experimentar o desejo fora do padrão é uma forma de sabotagem. Uma microrrevolução. Um desacato à lógica pornocapitalista. E um retorno ao que talvez o sexo sempre tenha sido antes de ser domesticado: uma dança de riscos, de falhas, de sentidos e de prazer sem nome.
O falo como trono: desejo sequestrado pelo poder
O falocentrismo é a espinha dorsal da performance sexual hegemônica. Não importa se é entre homens, mulheres, pessoas trans, não-bináries. Em quase todos os contextos, o falo — real ou simbólico — ainda é o centro da cena. Como se o sexo só acontecesse quando o pau entra. Como se o prazer legítimo só existisse com penetração. Como se o resto — o toque, a pausa, o olho, o som, o suor — fosse “preliminar”.
O falo se torna trono, símbolo de poder. E quem tem que portar esse trono? O homem cis, o “ativo”, o que penetra, o que comanda, o que goza primeiro. Essa estrutura é herança do patriarcado, que associa masculinidade à dominação, e prazer à conquista. A masculinidade que se exige nesses contextos não é uma experiência de identidade, mas uma performance de autoridade.
Nessa lógica, o corpo vira campo de batalha. O homem cis hétero ou gay precisa estar sempre pronto, sempre duro, sempre potente. A masculinidade se mede em centímetros e resistências. Isso gera ansiedade. Bloqueia o desejo espontâneo. Faz com que muitos não consigam se excitar fora da pornografia ou da substância química. A pressão é tanta que até o gozo se torna obrigação — não dá para falhar, não dá para sentir demais, não dá para parar.
E quem está do outro lado dessa relação — seja pessoa cis, trans, NB, passiva, ativa, sensível — muitas vezes precisa aceitar um lugar submisso, onde o prazer próprio não importa. Onde se finge sentir, ou se adapta, ou se silencia. É uma dinâmica de opressão disfarçada de tesão. Um sexo onde o prazer do outro é lei, e o seu é dívida.
Essa estrutura não só limita o desejo: ela o mata. Mata o desejo de quem não entra no padrão. Mata a curiosidade, o erro, o improviso. Mata o riso. E o que sobra é um sexo robotizado, onde o corpo não sente — ele representa. Quando o sexo se torna uma obrigação de desempenho e dominação, a liberdade do corpo desaparece. O prazer vira sintoma de poder. E a vulnerabilidade, que é a essência da intimidade, vira risco de exclusão.
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