segunda-feira, 26 de maio de 2025

O módulo, as gatas e o ego

Rio de Janeiro, 26 de maio de 2025.

Num módulo qualquer, de uma república qualquer, a paz foi interrompida por um miado. Não era só o som felino — era um prenúncio. A gata de Vania, jovem, curiosa, quase arteira, atravessou a porta aberta de Matheus. Lá dentro, encontrou Sol, a velha felina de poucas palavras, que não curte adolescente enxerida.

 Sol não avisou. Deu umas boas patadas. E, com isso, desencadeou uma tempestade de emoções humanas.

Vania, ao ouvir o rebuliço, rasgou o silêncio com o pranto. Gritou para a gata sair daquele "buraco", daquele "moquifo". Disse que ali não era lugar. Que no quarto dela havia tudo: comida, brinquedo, amor. Que não havia por que sua gata se meter com a ralé do lado. 

Mas o discurso não era para a gata. Era um sermão contra Matheus. Um despejo de mágoas acumuladas. Velhos rancores vestidos de nova ocasião.

Matheus não respondeu. Ou respondeu como sempre: com o silêncio ríspido de quem também carrega sua armadura.

Ambos se dizem vítimas do ego do outro. Ambos têm razão. Ambos estão certos. Ambos estão errados. Ambos são — de fato — egocêntricos. E nisso se reconhecem. E por isso se ferem.

Enquanto isso, eu — no meio — observo. Não sou mediadora. Não sou terapeuta de felinos, nem de afetos humanos. Tenho minha própria vida, meu próprio caos. E um pouco de riso debochado para não adoecer com a tragédia alheia.

Neste módulo, não faltam portas entreabertas. Mas falta a vontade de atravessá-las com escuta.

O que sobra? Gatas, arranhões, discursos inflamados, e a certeza de que, às vezes, o melhor a fazer é servir o café e deixar o palco se desmontar por si.

Nenhum comentário:

Postar um comentário