quinta-feira, 12 de junho de 2025

Domingo, Seis Da Manhã

O mundo ainda boceja, mas o caos já se levantou antes do sol.

Acordo com o som áspero de uma vassoura em atrito com o chão.

Não é só o barulho. É o gesto.

Um esfrega-esfrega irritado, desnecessariamente ruidoso, que penetra meu quarto pela porta entreaberta.

Rasga o resto de sonho que meu corpo ainda tentava segurar.


É Vânia.

De novo, Vânia.

E sua limpeza performática — com ares de justiça, com cheiro de castigo.


A gata dela, deixada solta na área comum, quebrou um vidro de formol.

E agora o chão fede a laboratório, a química estranha, a desculpa esfarrapada.

E o som da faxina virou castigo coletivo.

Como se a culpa fosse nossa.

Como se o barulho fosse solução.


Mas há um padrão, um ciclo mal disfarçado.

Percebo agora que toda vez que a alegria ronda nosso apartamento — uma saída para dançar, amigues que chegam com pipoca e afeto para ver um filme, uma noite de riso leve —

vem ela, depois.

Com sua tempestade miúda, seus atritos, seus ruídos.

Com um caos que sempre parece calculado.


Vânia não tolera sossego que não seja dela.

Não suporta festa que não seja por ela anunciada.

Sua ordem vem sempre depois da nossa liberdade.

E sua limpeza sempre soa como punição.


Diz que limpa porque há sujeira, mas não se responsabiliza pela origem do estrago.

Culpa outros. Sempre há um culpado fora dela — o gato, o vento, o outro.

Como se viver fosse um tribunal, e ela a única juíza acordada às seis da manhã.


Eu só queria dormir.

Mas dormir, por aqui, virou resistência.

E manter o sonho vivo, ainda que nos olhos entreabertos, virou revolução.

Manifesto Do Desejo Dissidente (parte 2)


Reivindico o direito de falhar no meio do beijo.

De rir durante o gozo. De não querer penetrar nem ser penetrade.

Reivindico o corpo que sente antes de performar.

O toque que não precisa provar nada.

O sexo como escuta, desvio, invenção.


Não sou produto.

Não sou função.

Não sou desempenho.


Sou corpo errante, desejo fluido, presença viva.

Sou a pausa entre o gemido e o silêncio.

Sou o que não entra na pornografia nem no mercado.

Sou o que escapa — e, por isso, insiste.


Rejeito o falo como centro.

Rejeito o macho como modelo.

Rejeito a lógica que transforma prazer em poder.


Quero o sexo como encontro, não como hierarquia.

Quero o corpo como território, não como embalagem.

Quero o gozo como mistério, não como meta.


Que se desfaça o trono.

Que o pau possa descansar

Que a vulva possa respirar.

Que o cu possa gozar sem medo.

Que o toque volte a ser descoberto.

Que o desejo volte a ser nosso.


Nosso e de ninguém.

Livre como a água.

Indomável como o riso.




segunda-feira, 26 de maio de 2025

O módulo, as gatas e o ego

Rio de Janeiro, 26 de maio de 2025.

Num módulo qualquer, de uma república qualquer, a paz foi interrompida por um miado. Não era só o som felino — era um prenúncio. A gata de Vania, jovem, curiosa, quase arteira, atravessou a porta aberta de Matheus. Lá dentro, encontrou Sol, a velha felina de poucas palavras, que não curte adolescente enxerida.

 Sol não avisou. Deu umas boas patadas. E, com isso, desencadeou uma tempestade de emoções humanas.

Vania, ao ouvir o rebuliço, rasgou o silêncio com o pranto. Gritou para a gata sair daquele "buraco", daquele "moquifo". Disse que ali não era lugar. Que no quarto dela havia tudo: comida, brinquedo, amor. Que não havia por que sua gata se meter com a ralé do lado. 

Mas o discurso não era para a gata. Era um sermão contra Matheus. Um despejo de mágoas acumuladas. Velhos rancores vestidos de nova ocasião.

Matheus não respondeu. Ou respondeu como sempre: com o silêncio ríspido de quem também carrega sua armadura.

Ambos se dizem vítimas do ego do outro. Ambos têm razão. Ambos estão certos. Ambos estão errados. Ambos são — de fato — egocêntricos. E nisso se reconhecem. E por isso se ferem.

Enquanto isso, eu — no meio — observo. Não sou mediadora. Não sou terapeuta de felinos, nem de afetos humanos. Tenho minha própria vida, meu próprio caos. E um pouco de riso debochado para não adoecer com a tragédia alheia.

Neste módulo, não faltam portas entreabertas. Mas falta a vontade de atravessá-las com escuta.

O que sobra? Gatas, arranhões, discursos inflamados, e a certeza de que, às vezes, o melhor a fazer é servir o café e deixar o palco se desmontar por si.

quarta-feira, 9 de março de 2022

Retrato Corpo

Nessa dança coloco o nada e o tudo. Caótico movimento sem sentido… Com sentido. Certeza, sem certeza. No espaço me apoio, tento diálogo. Visto esse espaço há alguns anos, percebo que não existe profundidade nessa conversa. Do quarto, observo linhas, cores, texturas, sombras. Tento caber no espaço… Reduzir.

Espaço reduzido. Então, não  saio. 

Quero caber? Esse espaço  me cabe?

Me deformei, me reduzi, denso… peso… Corpo!

Me vejo perdida no toque, já não sei mais me tocar!

Me vejo confusa no movimento, reduzindo ao retângulo… quarto! 

O espaço me tocou?

Nas linhas do corpo suor,

Nas linhas do quarto teias de aranhas que registram o tempo 

O tempo que respira ansiedade.

No corpo linhas que se quebram no movimento, tentando caber na câmera. Da câmera, um espiar debaixo para cima, uma narrativa registrada no apoio do vértice do retângulo do quarto. 

No corpo movimentos se quebram, formas se mostram, e sombras narram, planta, linha, esconderijo, segredo, mistério… escuridão.

sexta-feira, 23 de abril de 2021

Novembro

Um tempo 
Beijos infinitos 
Falta de ar 
Risos...

Te beijo lentamente 
Lendo cada narrativa dos seus lábios 
Sinto o limite! 
Mas...
Logo percebo que não há 

Te sugo 
Você  me suga 

Uma fusão,
Misturas de desejos...
Prazer de sentir seu corpo dançando com o meu
Um deslizar profundo de peles 

domingo, 22 de março de 2020

Parede Branca

A parede branca
Lugar de lucidez e loucura
São tantas paisagens…

Nela, um Louva a deus se equilibra em uma perna só, esquerda, sobre um salto alto…
Diz muito sobre mim… sobre a vida

Nela, palavras soltas… Rasga, olhos, ser gay, cidade, gota, prazer, humano, sementes, bexiga… Amor

Nela, versos soltos…
" O quarto que habito é uma confusão do meu estar no mundo"
"Sinto um desespero, não sei se é pelo tempo ou pela vida… "
"A cidade dorme de olhos abertos"

Lugar de registro de prazer

Nela, confiança, desconfiança, segurança e insegurança…

Parede branca, tão lúcida e ao mesmo tempo vai me deixando pirada
Me penduro em um varal com meus desenhos, que no tempo se perdem…

Parede branca, teias e aranhas, a companhia perfeita para o tempo da hipocrisia…

Parede branca
Lugar de registrar, de marcar as paisagens da loucura lucidez

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Quarta-feira


Pombo
Pardal
João de Barro
É brisa
Uma igreja, sino
É sirene, é polícia
É fluxo do asfalto
É o fluxo do calor
É um cortejo de nuvens condensadas anunciando dores... alegrias…
É Bem-te-vi que se escuta na brisa, mas nem te vi no espaço
O sol se esconde nas nuvens do seu cabelo
É um céu cinza que se mistura com as conversas dos pássaros. Que se mistura com as pessoas que caminham…
É quarta-feira.