quinta-feira, 16 de julho de 2026

Rastros de aulas

 Escrita sobre rastro de aulas… 

Escrevo para você que consegue,  de alguma forma, traduzir esses símbolos,  que formam palavras, frases, parágrafos. E aos poucos foi se construindo e se organizando em texto, podendo ou não trazer algum sentido, algum afeto. Ou podendo trazer apenas palavras perdidas nos papéis. Porque até para quem escreve questiona sobre a necessidade de dar ou não sentido a este texto. No entanto, quem escreve, de certa forma, está preocupade pelas possíveis construções: das narrativas, das paisagens, dos ritmos, da estética. Pois,  a escrita para mim, sempre se coloca em uma dimensão que leva tempo, é um respirar, é  um percurso,  um deixar os pensamentos, as reflexões se acalmarem em um corpo ansiose, que internamente são trilhões  de informações chegando, e com isso, gerando muitas reflexões, sensações e pensamentos… O processador não dá conta, entra em pane… 


“[...] Pane no sistema alguém me desconfigurou, aonde estão meus olhos de robô [...]”. 


Acho que estou deixando ou voltando a ser humane? Ou sou apenas uma vida bugada, danificada, pois não dou conta dessa organização de sociedade na qual vivemos. Não dou conta de assimilar tantas informações e das necessidades das relações sociais, hoje em dia, estarem muito carentes e em diálogos intenso com a tela, mesmo junto do outro o que prevalece é o diálogo com a tela... “você viu aquele meme”… “você viu aquela notícia”… “você viu aquele vídeo que postei”… “você está curtindo minhas fotos”…

Não vi nada [kkkk]... Estou perdide no meu tempo, no meu espaço, no meu mundo caótico… estou perdide na roupa que tenho que costurar, na trilha, no mato… Estou embolade na linha do crochê, do tricô, no trabalho… Estou com curiosidade e acompanhando as notícias sobre os OVNIS, sobre ETs… Sobre a política nacional… Estou com ódio dos conflitos geopolíticos, dos conflitos contra os povos originários… do conflito humane contra sua própria natureza… Estou em conflitos com minha ansiedade, depressão e medicações… Estou tentando dar conta de compreender, de respeitar, mesmo no caos, o meu modo de estar e ser no mundo… 

Mas voltando ao ato da escrita, ou nesse lugar de expressão pelas palavras, é isso, para mim, ela está neste lugar de tentar construir uma imaginação, uma sensação, uma história, uma dança ou talvez nada, que possa ou não fazer sentido, mas que é sobre pedaços escritos de experiências e reflexões que leva tempo para ser discorria no papel. E com isso, me sinto menos ansiose para este momento de parar e permitir debruçar na composição desse corpo-palavras que não é linear no tempo, no pensamento, no corpo e nem no espaço. Não é sobre ordem cronológica, mas uma mistura de tudo aquilo que pode compor essa narrativa. São palavras, frases, movimentos, dança, rolamentos, estrelinhas, cambalhotas, paisagens, sons, músicas, naturezas, emoções, sensações, sentimentos, vidas, que vão sendo costuradas e formando texto.

E nessa busca pelo sentido me amarro com a educação, pois é sobre a aula. É sobre o afeto. É sobre como a aula me ajudou a descobrir e redescobrir habilidades adormecidas do corpo - seja pensando na questão de movimento ou de aprender alguns dos elementos da arte circense vivenciados em aula. É sobre o corpo... E movimentar o corpo, não está apenas na superficialidade do movimento capitalista de existência e consumo no mundo. É profundo, e me leva para outros lugares dentro de mim, outros espaços que estão pulsando por uma necessidade enorme de ser ouvida, tocada, degustada, olhada,  sentida, percebida,  acolhida… O movimento pode levar o corpo a se aprofundar no próprio corpo. E nesse aprofundar, é escolher iniciar uma aventura. Então, trago pedaços desses pensamentos, sensações,  memórias,  emoções, que foram sendo mostrados durante o percurso na matéria Fundamentos do Circo no período de 2026.1.

O mundo vira na cambalhota. Tudo que está embaixo vai para cima,  tudo que está em cima vai para baixo. Mas onde fica o chão, onde fica o céu? Onde é em cima, onde é embaixo? Onde está o corpo, de cu pro céu, de pé pro chão, de cabeça pra nada? Onde e como está o corpo?...

E rolando segue o corpo no trajeto! Cada momento do caminho uma tentativa e necessidade de respirar, de dar uma pausa, de se permitir sentir o afeto das vidas, do espaço . É permitir sentir a pulsão que o movimento causa no corpo! É o coração que bate, é o sangue que alimenta cada pequena parte do corpo… Dá oxigênio que gera movimento e surge energia… 


Algo pulsa!


Algo vive!!!


E na brisa do rolamento memórias de coluna!!! No rolamento um reencontro com uma lembrança. Uma memória corporal. Um pedaço que compõem esse corpo e vem do Contato Improvisação, MATERIAL PARA COLUNA DE STEVE PAXTON….

UM ROLAMENTO, UM DESENROLAR DE COLUNA, QUE MOSTRA EM ESTALOS ESPAÇOS QUE ESTÃO SENDO REDESCOBERTOS E SENDO OCUPADOS PELO MOVIMENTO DE ROLAR, DE FLEXIONAR, DE TORCER… É PELA COLUNA QUE PASSA OS FIOS DE ALTA TENSÃO PARA SEREM DISTRIBUÍDOS PELO CORPO… É UM CHOQUE… uma estrutura que permite conexão, diálogos entre as partes do corpo E COM O MUNDO. 

NO ROLAMENTO A COLUNA SE CURVA, SE VIRA, SE MOVIMENTA EM UM SENTIDO CERTO, RETO, DIRETO… CHEGANDO NA MARGEM DO ABISMO… 

RESPIRO!!! 

O SUOR ESCORRE PELOS VALES, PLANÍCIES, DEPRESSÕES, PELA PELE SECA… O SUOR ESCORRE PELA GEOGRAFIA DO CORPO… O SUOR ROMPE COM O LIMITE, COM O TERRITÓRIO DO CORPO! E ASSIM, O CORPO pode escorregar,  SE LANÇAR NO ABISMO…


UMA ESCOLHA!!!


AS MÃOS TREMEM, SERÁ QUE ME SUPORTA? SERÁ QUE DOU SUPORTE AO MEU PRÓPRIO CORPO?

AVENTURAR-SE NO ABISMO NOS PERMITE QUESTIONAR O NOSSO PRÓPRIO ESTAR NO MUNDO. 

AVENTURAR-SE NO ABISMO É ENCONTRAR VÁRIAS DE NÓS E TENTAR APRENDER A LIDAR, COMPREENDER AS TANTAS QUE EXISTEM EM nós, QUE É CONFUSA, EGOCÊNTRICA, NARCISISTA, DEPRIMIDA, ANSIOSA, ALEGRE, TRISTE, IMPULSIVA, MEDROSA, INDIVIDUALISTA, COLETIVA, ESTRANHA, ANARQUISTA,  COMUNISTA, DOIDA, TRANQUILA, CONTRADITÓRIA, BOA, MÁ, OBJETIVA,MACONHEIRA, SEXUAL, INDECISA, ASSESSEXUAL, AGENERA … 

AVENTURAR-SE NO ABISMO É ENCONTRAR COM AS EMOÇÕES, SENTIMENTOS E TENTAR NAS DIFERENTES CONDIÇÕES Do percurso da VIDA MANTER MINIMAMENTE uM EQUILÍBRIO…


“[...] Mas sei que uma dor assim pungente 

Não há de ser inutilmente 

A esperança dança na corda bamba de sombrinha 

E em cada passo dessa linha pode se machucar [...]”


Azar… 


E O QUE É A VIDA? SENÃO UM MOVIMENTO QUE GERA ENERGIA E ATRAVESSA E SE DEIXA SER ATRAVESSADa POR OUTRAS VIDAS. E DESSE ENCONTRO UM DESEQUILÍBRIO, causando UMA DOR, uma alegria,  UMA POSSIBILIDADE DE SENTIR, E DEIXAR O CORPO REGISTAR EM SUA pele NARRATIVAS de UMA EXPERIÊNCIA VIVIDA. 

O QUE É A VIDA? SE NÃO UM ATO DE SE DEIXAR SER ATRAVESSADE PELO ABISMO E NO PURO CAOS DO CORPO, TENTAR SUPORTAR, TIRAR DESSA EXPERIÊNCIA UM APRENDIZADO, E  ASSIM, CONSTRUIR  HISTÓRIAS… 


SERÁ QUE DOU SUPORTE AO MEU CORPO? SERÁ  QUE AGUENTO ESSA FORÇA PESO DA AÇÃO DA GRAVIDADE SOBRE O MEU CORPO?


NA PARADA DE MÃO O BRAÇO SEMPRE QUER FLEXIONAR. CADÊ O BOTÃO PARA NÃO FLEXIONAR? Falta força nos braços… UMA AGONIA!!! Parece  que o mundo cairá sobre a cabeça,  amassando-a até romper com seus limites e explodir em PEDACINHOs pelo espaço, PODENDO assim, compor  outras possibilidades de existência em outro ponto do espaço!!! 

AGORA PÉS SÃO MÃOS. MÃOS  são PÉS … O cu virado rindo pra Lua… E um fluxo mais intenso de sangue  que segue concentrando na cabeça, nos braços, que pulsa se mostrando nas veias que saltam e se exibem sob a pele…  

Há tantas possibilidades de estar no mundo, mas uma coisa é certa, suporte é fundamental, o corpo que não consegue, dentro das Ns possibilidades, se suportar não consegue se permitir vivente no mundo. 

Um suporte de corpo que não está apenas pensando em sua estrutura material, em seu peso em relação a força da gravidade e não deixar se render a essa força.  Mas, também, um suporte, no qual, o corpo tenta ter ciência que suas emoções e sentimentos poderão ser abalados ao se aventurar pelo mundo. E no pior momento de caos, continue a respirar!!! Continue a respirar!!! Continue a respirar!!! ... 

E se cair!? 


Do chão não passa! 



Queda!!! 



E em diálogo com as aulas encontro em minhas lembranças as práticas e estudos sobre a queda, no Contato Improvisação. Sobreviver à queda não significa evitar cair, mas desenvolver um corpo atento, capaz de distribuir o impacto, ceder peso e reorganizar-se continuamente. A queda deixa de ser um erro e passa a ser uma oportunidade de descoberta do movimento.  O corpo aprende a confiar nos próprios reflexos, na relação com o chão, com o outro e com o mundo. Transformando o desequilíbrio em continuidade de movimento.


E NA QUEDA, reENCONTRO STEVEN PAXTON. E NA MENTE  A IDEIA DE NÃO LUTAR OU RESISTIR A GRAVIDADE NA QUEDA, MAS PERMITIR UM DIÁLOGO, NO QUAL O CORPO POSSA ENCONTRAR, NA QUEDA, UMA MANEIRA DE DESLIZAR, ESCORREGAR. DEIXAR O CORPO ENTREGUE A GRAVIDADE E SE PERMITIR SENTIR O PESO DO CORPO SE REORGANIZAR NO ENCONTRO COM O CHÃO, para a realização da cambalhota… 


E NA QUEDA PELO ABISMO DO CORPO SIGO. AINDA SEM SABER ONDE ESTÁ O CÉU OU O CHÃO. É UM DESAFIO QUE GERA MEDO, INSEGURANÇA. POIS APROFUNDAR DO CORPO POSSIBILITA O ENCONTRO COM A INCERTEZA. E É NA INCERTEZA QUE ESTÁ O AFETO. E DEIXAR AFETAR  ABRE CAMINHO PARA AS EMOÇÕES, SENTIMENTOS, E ASSIM, REGISTRAR NA PELE EXPERIÊNCIA. Talvez seja isso que Jorge Larrosa chama de experiência. Não aquilo que acontece, mas aquilo que nos acontece. O que atravessa a pele, desloca certezas, reorganiza o corpo e permanece pulsando. 

E volto para o suporte, e sabendo me suportar, consigo suportar o outro e o outro e o outro. E assim, construir um coletivo, que na singularidade de cada um, buscamos algo comum na construção de pirâmides. E aqui percebo. A estrutura tem encaixe, tem que saber, nas suas singularidades, se encaixar no outro possibilitando um suporte que aguente o peso, as emoções, as ansiedades do outro. Permitindo assim, que a energia flua. E na pirâmide, os músculos da coxa queimam! Estar em coletivo é se sentir junto com o outro, é saber que cada um nessa estrutura é suporte um do outro. 

Energia!!!

Limite … 

Entrega! 

Até onde o corpo pode ir?

Qual é o limite do corpo? 

O corpo na sua natureza fluida se percebe que a fluidez está bloqueada… medo… insegurança… a ansiedade aperta… respira!!! Respira… Fazer o exercício da respiração ajuda a controlar a ansiedade em alguns momentos leve de crise. [Kkkkkk] o corpo treme, calafrios, uma respiração ofegante!!! 

Nas aulas a ansiedade se revela… O suor, também, sempre se mostra presente. É muita força para realizar um exercício?  Só um levantar de braço e escorrego em mim mesma pelo suor da pele. Força desnecessária? Suor sempre é um marcador da presença da ansiedade.

Agora o suporte é  coletivo, e na atual conjuntura política precisamos de uma construção coletiva. O que é comum a todes nós? SAÚDE, EDUCAÇÃO,  LAZER, CULTURA,  SEGURANÇA,  ALIMENTAÇÃO, DIGNIDADE, FESTA, HUMANIDADE… 

E NESSE COLETIVO QUE SE CONSTRÓI DAS SINGULARIDADES DOS CORPOS, A AULA TORNA-SE ESPAÇO DE AFETOS. UMA COLUNA QUE CONSTRÓI PONTE, PERMITINDO CONEXÃO, PASSAGEM, CAMINHO. QUE LIGAM OUTROS MUNDOS. UM ABRIR DE CORPO PARA O MUNDO E PARA OUTRAS VIDAS. SEMPRE UM ENCONTRO E DESSE ENCONTRO BUSCAMOS QUEBRAR BARREIRAS QUE POSSAM LIMITAR O CORPO. BUSCAMOS EDIFICAR PIRÂMIDES QUE TRAZEM EM SUA ESTRUTURA HISTÓRIAS DE OUTRAS VIDAs! 

MEU CORPO, UMA MINA BROTANDO ÁGUA… A ANSIEDADE TAMBÉM SE DÁ PELO OUTRO. ESTAR EM COLETIVO É SEMPRE UMA QUESTÃO. 

CENTRO, PESO, GRAVIDADE! A FÍSICA DO CORPO SE COLOCA. CADÊ O EIXO? FECHA O ABDÔMEN! FORÇA NO BRAÇO! SE PERCEBA! 

NA ESTRUTURA DA PIRÂMIDE E DO CORPO , ALGO EM COMUM, O ENCAIXE PARA PODER SUSTENTAR, PARA PODER SUPORTAR. 


VETOR! 


EM QUAL[IS] DIREÇÃO[ES] ESTÁ INDO A FORÇA? DEIXE PASSAR, FLUIR, PELAS ARTICULAÇÕES, PELAS CONEXÕES ENTRE OS CORPO, PELO CONTATO… ATÉ CHEGAR NA RAIZ E SE ESPALHAR PELO CHÃO. 

O ABDÔMEN GRITA NÃO TEM FORÇA PARA LEVANTAR A PONTE!!! AAAH

A NOITE ACOMPANHADA DO CÉU ESTRELADO GRITA EM TIROS. LONGE,  MAS PERTO. UM SOM QUE CHEGA NA AULA CONSTRUINDO UMA NARRATIVA QUE AOS POUCOS SE DISSIPA NO AMBIENTE FEITO FUMAÇA… é quarta feira os tiROS pode ser em comemoração ao futebol… 

A BIOMECÂNICA DO CORPO SE FAZ PRESENTE ASSIM COMO AS EMOÇÕES e O CUIDADO com O OUTRO E com O PRÓPRIO CORPO

TULE… UM PESO, UMA DENSIDADE… GRAVIDADE, MASSA, VENTO… 

QUAL É MINHA MASSA? 

QUAL É A MINHA FORÇA PESO?

QUEDA LIVRE! O TULE MAIS DENSO, COMPRIMIDO, cai mais RÁPIDO. SE ESTIVER ABERTO DEMORA  A CAIR… 

E O CORPO ? PODE SER MAIS LEVE ? PODE SER MAIS PESADO? CONTRAÇÃO e RELAXAMENTO! Comprimido e expansivo

A noite hoje está nublada. Sons de grilo, do ônibus, dos carros, de passos, do vento, do escuro… sons do silêncio. Hoje nenhuma estrela se mostra. É bom sentir a brisa, traz para o corpo a calmaria, a leveza e a sensação de estar sendo levada pelo vento, se deixando flutuar no ar. E nesse momento da vida redesenho, recomeço,  refaço novos caminhos.  Desde criança meu corpo é colocado em questão. Ora brincava de boneca, ora de bola, ora de nada! Menino? Menina? Viadinho! Boiolinha! Bixinha! Vira homem!!! E sozinho vou introjetando no meu corpo um ser que foge do feminino, mas que também não se identifica como masculino. Me visto de algo que não sou, me guardo, uma forma de se proteger dos preconceitos, dos constrangimentos e das violências, já que sempre passei por esses momentos sem ter alguém a recorrer ou pedir ajuda… Então me fecho, me silencio e na adolescência um corpo fechado! Na família percebi uma certa exclusão vindo das partes masculinas (pai, tio, primos, irmão) e me recolhi junto das mulheres (mãe, avós, tias e primas), pois de certa forma era com quem me identificava e me acolhia. Então, por ser essa criança  que fluía entre apresentar gestos, comportamentos femininos E masculinos, fui aprendendo a lidar, de certa forma, com a exclusão, e com isso,  fui ainda mais ficando no meu mundo particular. E aos poucos esse corpo vai sendo moldado a aprender a ser mais “normal”. Mas o que é ser normal? E hoje me busco na infância, na não binaridade agenera que já existia em mim.  

As escritas são sempre no fim. Então, sempre comecei pelo fim. Pois, os pedaços de escritas que formam este texto vieram sempre depois da aula. E no corpo ficou rastros, marcas, memória,  sensações, emoções, que deixa o corpo mais ativo, aberto para viver . E aqui estou vivendo na ação de construção deste texto sob o luar que transita de lua cheia para decrescente até minguar para renascer. E nessa última lua cheia, também, ocorreu um fenômeno, a Lua azul. 


Uma brisa atravessa o corpo. E traz novamente a queda. Cair é um impacto que faz o corpo tremer no mais profundo do corpo! A queda já era certa, mas tinha que experimentar, sentir o pulmão,  o estômago, a costela, a coluna, o coração, as escápulas, a cabeça , no impacto com o colchão, reverberarem, tremerem. Perceber a tridimensionalidade do corpo. Uma queda que se permite cair, sentir… e se perguntar: como sobreviver a queda? 


Hoje a aula me permitiu cair… e da queda o encontro com a confiança! Confiar no outro, é uma questão de dificuldade, mas estamos em aula. 


É muita calma… Calma, é um processo natural

É sobre estrutura? 

É sobre leveza? 

É sobre peso, força, gravidade? 

É sobre corpo, massa, eixo? 

É TULE que cai, e flui no percurso, degustando cada segundo de tempo. Um tempo todo seu que permite ao corpo, respirar, pegar e lançar o TULE pro ar novamente… um tempo… um tempo… 

Hoje é  dia, céu azul, fim de tarde… as horas deixei para lá. Mas o tempo é para sentir. Conviver com céu azul, com vento que toca a pele, com os sons dos pássaros… bem-te-vi… fim de tarde! 

E nesse entre, tarde e noite, tudo pode acontecer no caos da cidade do Rio de Janeiro. Ônibus lotado… No entre há caminhos de possibilidade até estabelecer a escuridão da noite. 

E nos momentos dos entres. Entre mundos, entre pessoas… tento me permitir conviver, trocar  com os corpos ao meu redor. Um entre para se pensar no coletivo. Sobre como a minha ansiedade aumenta ao estar com outras pessoas… sempre fui uma criança que não soube lidar muito com as interações sociais, sou uma bixinha do mato, mas, de certa forma, fui obrigade a descobrir maneiras de ser minimamente sociável, a me adaptar. Sempre busquei na infância, adolescência e agora adulte, focar no meu interior, no meu mundo, por isso também me reconheço como uma pessoa perdida no tempo e no espaço. E dentro do meu mundo não havia espaço para outros, e acho que até hoje não há muito espaço para outros. Minha solitude com natureza, ouvindo o silêncio que é repleto de sons de outras vidas, é meu tesouro. 

Queda livre… 

vira mundo! 

Vira a cabeça! 

Vira o corpo! 

E o mortal deixa para outro momento. 






 










sábado, 19 de julho de 2025

E se for aqui?

 

Eu me procuro em olhos que não são meus.

Deslizo na pele alheia como quem tateia

Um mapa furado,

Uma rota em ruínas.


E não me basta, é uma busca incessante,

E na superfície dos olhos apenas deslizo,

Mas não aprofundo.

E sigo pelo caminho …


Quero me encontrar …

Mas não sei onde me perdi.


O que houve?

Por que meu corpo foi esquartejado?

Talvez tenha sido naquele like,

Naquela espera por resposta,

Naquele corpo que me desejava sem ver

Quem tremia dentro da carne.


E no ato de unir as partes,

de costurá-las, é tão doloroso…

O corpo foi esquartejado para atender...

Necessidades que não fazem parte de sua natureza!


O mundo me diz:

"Seja melhor."

"Seja bela."

"Seja forte."

"Seja agora."

“Seja perfeita”

"Se comporte assim"...

Mas nunca: seja só.


E na solidão do caos do quarto, fico.

Estar só assusta.

Estar só revela.

Estar só acalma.

Estar só faz doer.


E se doer for o preço de me achar?

E se o encontro não for um êxtase apenas, mas também for queda?


A vida é dor, é prazer… 

Por isso, aqui se deu de forma orgânica,

Para sentirmos o peso do valor da vida,

Para sentir a dor e o prazer do desejo.


E talvez isso seja o significado:

Sentir,

Deixar a dor habitar,

Entendê-la,

Respirá-la,

E liberá-la,

Seja na saudade, no choro…

Mas liberá-la… 

Para continuar seguindo o caminho do corpo.


Dizem que o amor salva.

Mas o que me salva é a pausa.

O silêncio entre dois toques

O momento em que não preciso caber.


Porque às vezes,

O que mais me cura

É o que mais me escapa:

Me olhar no espelho e não fugir.


Já não quero mais me consumir no desejo do outro.

Quero que o desejo me consuma de dentro,

Feito brasa lenta,

Feito corpo que sonha.


Hoje, decido ser

O terreno que habito,

Mesmo rachado,

Mesmo deserto.


Pois só quem acolhe o próprio vazio

Pode dançar com a própria sombra

Sem sentir culpa.



sexta-feira, 13 de junho de 2025

Manifesto do desejo dissidente (parte 1)


Quando o match cansa 

Abro o app. Vejo uma fila de avatares repetidos: abdômens editados, paus duros de farmácia, legendas que prometem dominação ou submissão, mas quase nunca presença. O jogo é conhecido: “ativo”, “passivo”, “dotado”, “discreto”. Uma pornografia automatizada que se disfarça de encontro. Corpos que se desejam sem se escutar. Desejos que se fingem intensos, mas seguem o script.

Eu? Não sou esse tipo de filme. Sou corpo que dança entre o riso e o risco. Não performo macho, nem aceito a submissão como destino. Sou não-binárie, de desejo fluido. Me movo no campo do sensível, do riso, da pausa, do toque que não tem nome. Não me interesso por ereções que duram 24h, mas por presenças que duram mais que uma transa.

Nos aplicativos, percebo o quanto o sexo virou vitrine, o quanto os corpos foram treinados a funcionar, e não a sentir. O pau tem que subir como botão de elevador. A bunda tem que estar disponível, dura e muda. O gozo tem que chegar rápido. O mistério, esse sim, deve desaparecer. E eu, que vivo do mistério, sou ameaça.

Mas isso não acontece só nos apps. Vivemos num sistema que transforma tudo — inclusive o desejo — em mercadoria. O capitalismo molda os corpos como produtos prontos para o consumo. Cria o corpo ideal: musculoso, performático, com pau grande ou bunda grande, cis, jovem, padrão. E vende esse corpo como se fosse o único com direito ao prazer. O sexo vira um privilégio dos corpos “aptos”. O resto? Fica fora do catálogo.

O desejo se torna um mercado. E como em todo mercado, só quem tem capital entra no jogo: capital corporal, capital estético, capital sexual. Os outros — os gordos, os racializados, os dissidentes, os velhos, os fora da curva — são empurrados para a margem, como se não pudessem desejar, como se não pudessem ser desejades.

Este texto nasce do desejo de criar fissura nesse sistema de performances cansadas. De abrir espaço para o desejo como experiência viva — não como produto. De dizer, com o corpo inteiro: não sou seu pornô de bolso.


O mercado dos corpos 

O sexo, que deveria ser encontro, virou vitrine. Nos aplicativos, deslizar o dedo para o lado é um gesto de consumo. É como escolher um produto num mercado. As descrições são etiquetas: “ativo, dotado, másculo, limpo, sem frescura”. O corpo virou mercadoria e o desejo, algoritmo.

O capitalismo aprendeu a lucrar com tudo, até com a forma como sentimos tesão. A pornografia industrializada ensinou a coreografia do prazer como uma sequência obrigatória: beijo, oral, penetração, gozo. Sempre nessa ordem. Sempre com os mesmos corpos. Sempre com a mesma atuação. A mesma cara de prazer fingido, o mesmo corpo que não sua, não ri, não falha. Performance de um gozo que não é vivido, é repetido.

E quem foge desse script? É apagado, silenciado, rejeitado ou fetichizado. Corpos fora do padrão – corpos gordos, pretos, trans, efeminados, envelhecidos, dissidentes – são tratados como exceção ou como aberração. E o pior: muitas vezes nós mesmos aprendemos a nos excluir. Interiorizamos a lógica do mercado. Achamos que não temos o corpo certo para gozar, para ser tocade, para ser escolhide. O sistema nos treina para desejar o que nos despreza — e a recusar o que poderia nos libertar.

Essa organização do desejo não é natural. Ela é construída. Ensinaram que pau duro é sinônimo de virilidade. Que quem penetra tem que ser másculo, e quem é penetrade tem que ser submisso. O sexo virou hierarquia: quem fode vale mais do que quem sente. E o gozo, em vez de festa, virou meta de produtividade.

O corpo, nesse sistema, tem que funcionar — como uma máquina. Tesão virou desempenho. Ereção virou prova. A sensibilidade virou defeito. E o prazer... o prazer real, aquele que se reinventa, que experimenta, que falha, que ri... esse foi esquecido.


Entre o risco e o riso: o desejo como experiência 

Desejo não é roteiro. É risco, surpresa, silêncio, caos. É riso no meio do toque, é errar o tempo e rir junto. É falhar o pau, gozar na conversa, parar no meio e descobrir outra coisa. Desejo é acontecimento – não tem que seguir manual.

Meu corpo não cabe na pornografia de bolso. Não sou máquina de tesão. Não sou botão de gozo instantâneo. Meu corpo é território sensível. Gosta do cheiro, do tempo, da troca sem obrigação. Às vezes a penetração acontece; às vezes não. Às vezes só o olhar penetra. Às vezes o toque é com o dedo, com a voz, com o joelho. Gosto do sexo que é caminho, não destino. Do que não se apressa, do que se escuta, do que se reinventa ali, na hora.

É nessa escuta que mora o que me excita. Quando o outro está presente de verdade, e não apenas representando um papel. Quando o corpo não está performando “ativo” ou “passivo”, mas se deixando afetar, vibrar, vacilar. O sexo mais intenso que já vivi não foi com penetração, foi com entrega. Foi com riso. Foi com cuidado. Foi com espanto.

Esse modo de viver o desejo é também um modo de resistir. Resistir ao consumo dos corpos, à lógica do desempenho, à brutalidade das performances que só repetem o que já foi visto. Experimentar o desejo fora do padrão é uma forma de sabotagem. Uma microrrevolução. Um desacato à lógica pornocapitalista. E um retorno ao que talvez o sexo sempre tenha sido antes de ser domesticado: uma dança de riscos, de falhas, de sentidos e de prazer sem nome.


O falo como trono: desejo sequestrado pelo poder 

O falocentrismo é a espinha dorsal da performance sexual hegemônica. Não importa se é entre homens, mulheres, pessoas trans, não-bináries. Em quase todos os contextos, o falo — real ou simbólico — ainda é o centro da cena. Como se o sexo só acontecesse quando o pau entra. Como se o prazer legítimo só existisse com penetração. Como se o resto — o toque, a pausa, o olho, o som, o suor — fosse “preliminar”.

O falo se torna trono, símbolo de poder. E quem tem que portar esse trono? O homem cis, o “ativo”, o que penetra, o que comanda, o que goza primeiro. Essa estrutura é herança do patriarcado, que associa masculinidade à dominação, e prazer à conquista. A masculinidade que se exige nesses contextos não é uma experiência de identidade, mas uma performance de autoridade.

Nessa lógica, o corpo vira campo de batalha. O homem cis hétero ou gay precisa estar sempre pronto, sempre duro, sempre potente. A masculinidade se mede em centímetros e resistências. Isso gera ansiedade. Bloqueia o desejo espontâneo. Faz com que muitos não consigam se excitar fora da pornografia ou da substância química. A pressão é tanta que até o gozo se torna obrigação — não dá para falhar, não dá para sentir demais, não dá para parar.

E quem está do outro lado dessa relação — seja pessoa cis, trans, NB, passiva, ativa, sensível — muitas vezes precisa aceitar um lugar submisso, onde o prazer próprio não importa. Onde se finge sentir, ou se adapta, ou se silencia. É uma dinâmica de opressão disfarçada de tesão. Um sexo onde o prazer do outro é lei, e o seu é dívida.

Essa estrutura não só limita o desejo: ela o mata. Mata o desejo de quem não entra no padrão. Mata a curiosidade, o erro, o improviso. Mata o riso. E o que sobra é um sexo robotizado, onde o corpo não sente — ele representa. Quando o sexo se torna uma obrigação de desempenho e dominação, a liberdade do corpo desaparece. O prazer vira sintoma de poder. E a vulnerabilidade, que é a essência da intimidade, vira risco de exclusão.








quinta-feira, 12 de junho de 2025

Domingo, Seis Da Manhã

O mundo ainda boceja, mas o caos já se levantou antes do sol.

Acordo com o som áspero de uma vassoura em atrito com o chão.

Não é só o barulho. É o gesto.

Um esfrega-esfrega irritado, desnecessariamente ruidoso, que penetra meu quarto pela porta entreaberta.

Rasga o resto de sonho que meu corpo ainda tentava segurar.


É Vânia.

De novo, Vânia.

E sua limpeza performática — com ares de justiça, com cheiro de castigo.


A gata dela, deixada solta na área comum, quebrou um vidro de formol.

E agora o chão fede a laboratório, a química estranha, a desculpa esfarrapada.

E o som da faxina virou castigo coletivo.

Como se a culpa fosse nossa.

Como se o barulho fosse solução.


Mas há um padrão, um ciclo mal disfarçado.

Percebo agora que toda vez que a alegria ronda nosso apartamento — uma saída para dançar, amigues que chegam com pipoca e afeto para ver um filme, uma noite de riso leve —

vem ela, depois.

Com sua tempestade miúda, seus atritos, seus ruídos.

Com um caos que sempre parece calculado.


Vânia não tolera sossego que não seja dela.

Não suporta festa que não seja por ela anunciada.

Sua ordem vem sempre depois da nossa liberdade.

E sua limpeza sempre soa como punição.


Diz que limpa porque há sujeira, mas não se responsabiliza pela origem do estrago.

Culpa outros. Sempre há um culpado fora dela — o gato, o vento, o outro.

Como se viver fosse um tribunal, e ela a única juíza acordada às seis da manhã.


Eu só queria dormir.

Mas dormir, por aqui, virou resistência.

E manter o sonho vivo, ainda que nos olhos entreabertos, virou revolução.

Manifesto Do Desejo Dissidente (parte 2)


Reivindico o direito de falhar no meio do beijo.

De rir durante o gozo. De não querer penetrar nem ser penetrade.

Reivindico o corpo que sente antes de performar.

O toque que não precisa provar nada.

O sexo como escuta, desvio, invenção.


Não sou produto.

Não sou função.

Não sou desempenho.


Sou corpo errante, desejo fluido, presença viva.

Sou a pausa entre o gemido e o silêncio.

Sou o que não entra na pornografia nem no mercado.

Sou o que escapa — e, por isso, insiste.


Rejeito o falo como centro.

Rejeito o macho como modelo.

Rejeito a lógica que transforma prazer em poder.


Quero o sexo como encontro, não como hierarquia.

Quero o corpo como território, não como embalagem.

Quero o gozo como mistério, não como meta.


Que se desfaça o trono.

Que o pau possa descansar

Que a vulva possa respirar.

Que o cu possa gozar sem medo.

Que o toque volte a ser descoberto.

Que o desejo volte a ser nosso.


Nosso e de ninguém.

Livre como a água.

Indomável como o riso.




segunda-feira, 26 de maio de 2025

O módulo, as gatas e o ego

Rio de Janeiro, 26 de maio de 2025.

Num módulo qualquer, de uma república qualquer, a paz foi interrompida por um miado. Não era só o som felino — era um prenúncio. A gata de Vania, jovem, curiosa, quase arteira, atravessou a porta aberta de Matheus. Lá dentro, encontrou Sol, a velha felina de poucas palavras, que não curte adolescente enxerida.

 Sol não avisou. Deu umas boas patadas. E, com isso, desencadeou uma tempestade de emoções humanas.

Vania, ao ouvir o rebuliço, rasgou o silêncio com o pranto. Gritou para a gata sair daquele "buraco", daquele "moquifo". Disse que ali não era lugar. Que no quarto dela havia tudo: comida, brinquedo, amor. Que não havia por que sua gata se meter com a ralé do lado. 

Mas o discurso não era para a gata. Era um sermão contra Matheus. Um despejo de mágoas acumuladas. Velhos rancores vestidos de nova ocasião.

Matheus não respondeu. Ou respondeu como sempre: com o silêncio ríspido de quem também carrega sua armadura.

Ambos se dizem vítimas do ego do outro. Ambos têm razão. Ambos estão certos. Ambos estão errados. Ambos são — de fato — egocêntricos. E nisso se reconhecem. E por isso se ferem.

Enquanto isso, eu — no meio — observo. Não sou mediadora. Não sou terapeuta de felinos, nem de afetos humanos. Tenho minha própria vida, meu próprio caos. E um pouco de riso debochado para não adoecer com a tragédia alheia.

Neste módulo, não faltam portas entreabertas. Mas falta a vontade de atravessá-las com escuta.

O que sobra? Gatas, arranhões, discursos inflamados, e a certeza de que, às vezes, o melhor a fazer é servir o café e deixar o palco se desmontar por si.

quarta-feira, 9 de março de 2022

Retrato Corpo

Nessa dança coloco o nada e o tudo. Caótico movimento sem sentido… Com sentido. Certeza, sem certeza. No espaço me apoio, tento diálogo. Visto esse espaço há alguns anos, percebo que não existe profundidade nessa conversa. Do quarto, observo linhas, cores, texturas, sombras. Tento caber no espaço… Reduzir.

Espaço reduzido. Então, não  saio. 

Quero caber? Esse espaço  me cabe?

Me deformei, me reduzi, denso… peso… Corpo!

Me vejo perdida no toque, já não sei mais me tocar!

Me vejo confusa no movimento, reduzindo ao retângulo… quarto! 

O espaço me tocou?

Nas linhas do corpo suor,

Nas linhas do quarto teias de aranhas que registram o tempo 

O tempo que respira ansiedade.

No corpo linhas que se quebram no movimento, tentando caber na câmera. Da câmera, um espiar debaixo para cima, uma narrativa registrada no apoio do vértice do retângulo do quarto. 

No corpo movimentos se quebram, formas se mostram, e sombras narram, planta, linha, esconderijo, segredo, mistério… escuridão.

sexta-feira, 23 de abril de 2021

Novembro

Um tempo 
Beijos infinitos 
Falta de ar 
Risos...

Te beijo lentamente 
Lendo cada narrativa dos seus lábios 
Sinto o limite! 
Mas...
Logo percebo que não há 

Te sugo 
Você  me suga 

Uma fusão,
Misturas de desejos...
Prazer de sentir seu corpo dançando com o meu
Um deslizar profundo de peles 

domingo, 22 de março de 2020

Parede Branca

A parede branca
Lugar de lucidez e loucura
São tantas paisagens…

Nela, um Louva a deus se equilibra em uma perna só, esquerda, sobre um salto alto…
Diz muito sobre mim… sobre a vida

Nela, palavras soltas… Rasga, olhos, ser gay, cidade, gota, prazer, humano, sementes, bexiga… Amor

Nela, versos soltos…
" O quarto que habito é uma confusão do meu estar no mundo"
"Sinto um desespero, não sei se é pelo tempo ou pela vida… "
"A cidade dorme de olhos abertos"

Lugar de registro de prazer

Nela, confiança, desconfiança, segurança e insegurança…

Parede branca, tão lúcida e ao mesmo tempo vai me deixando pirada
Me penduro em um varal com meus desenhos, que no tempo se perdem…

Parede branca, teias e aranhas, a companhia perfeita para o tempo da hipocrisia…

Parede branca
Lugar de registrar, de marcar as paisagens da loucura lucidez

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Quarta-feira


Pombo
Pardal
João de Barro
É brisa
Uma igreja, sino
É sirene, é polícia
É fluxo do asfalto
É o fluxo do calor
É um cortejo de nuvens condensadas anunciando dores... alegrias…
É Bem-te-vi que se escuta na brisa, mas nem te vi no espaço
O sol se esconde nas nuvens do seu cabelo
É um céu cinza que se mistura com as conversas dos pássaros. Que se mistura com as pessoas que caminham…
É quarta-feira.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

!!!

Meu!!! Nada é meu
O quarto que habito 
É uma confusão do ser, do meu ser no mundo
Sementes germinam no piso... 
Raízes ilusórias penetram no chão-piso... Concreto do ser
A parede deita na cama, dorme um profundo sono sem fim... 

Rastro parado na parede

Algo me chama
Não sei de onde vem essa voz
Devo partir... 
Na parede deixo rastros, registro um pouco de mim
O olhar, os olhares me chamam
É uma questão...
Meus desenhos surgem a partir do olho
Me apaixono pelos olhares de algumas pessoas...
Algo me chama...
Gira mundo... 
Gira pião
Gira, pomba gira
E nessa gira preciso aprender a girar
Nas paredes registro um pouco de mim. 

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Narrativas imaginadas de danças

13 de Julho de 2019

Narrativas imaginadas de danças 

Corpo a deriva no universo. 

Corpo a deriva no universo sem ar

______________________sem som 

______________________sem nada. 

São tantos pés pro alto querendo buscar o céu. 

São tantas bundas pro nada querendo buscar o chão. 

Tantos!…. Tantas!…
Tantos corpos virados pro nada. 

As paredes riem… Observam as danças e questionam: Como sobreviver na queda? 

Caminho nas costas… nas ondulações da sua coluna… Percorro o mundo… Mundo costas… Mundo coluna. 

Pé raíz... Pé de vento… Pé solto… Pé chato… Pé no chão… Vivo de cu pra lua e com os pés de Curupira. 

No meio da mata o vento chacoalha os corpos que vibram no chocalho da cascavel. 

Giro, reviro o corpo… Te procuro… E cadê você? 

A minha barriga conversa com a sua coluna em idioma de ar… "aaaaaaaaah" 

Ainda sigo girando no desequilíbrio. Parece bêbado consciente.

Estamos entrando em um ritual. Da floresta, mata, moita, mato... Caos, caldeira. 

É o dedo mindinho que me leva para dançar no espaço… para o ritual.

Pausa________ self.

Seu idioma enrola na língua da minha boca… Linguagem do corpo. 

Ainda está girando… Bêbado consciente… bebo o espaço… bebo os corpos… bebo o universo… Corpos embriagados. 

Caminha, corpo-ritual. Entro no universo, um tatear de peles… Pele fala… Pele se comunica com a pele. 

Quero ver seu pé voar pelo tempo… Voar pelo mundo-corpo… Pra onde tu caminhas? Caminho pela pele-história do seu corpo. 

A ponta do lápis está bamba!

"3:30 da manhã…. Atravessa… Pensamento de MM… Construção… Independência… Guiné - Bissau… Paulo Freire… Projeto educacional… Para a revolução" - Palavras captadas na dança narrada pela MM. 

Não foge da dança Corpo. Não se perda corpo. A narrativa de MM acabou_____Será que vem revolução? 

As paredes pretas observam!

Os quadris do Global Underscore se encontram. Lá estão dançando no centro. E vira a bacia… Derrama água que molha os corpos… Sai ar para o nada. 

Encontros e desencontros, são fugas sem fugirem. 

O nada é a imensidão dos corpos que aqui dançam. 

A ponta do lápis, ainda bamba, dança no papel. 

Escrita de danças no papel… Narrativas imaginadas bem dançadas no papel.

Corpo… 

Lápis… 

Mão… 

Dedos… 

Coluna… 

Pele… 

Contato… 

Papel. 

São tantas reticências!

quarta-feira, 13 de março de 2019

Palavras Efêmeras

Esperança

Há esperança?
São corpos e movimentos
Há movimento nos corpos

A esperança se dá no movimento do corpo...

Corpo... Explosão

A esperança não é aquela que se jogou da janela do alto de um prédio e agonizou no concreto quente por onde os corpos caminham...

Não!

A esperança são corpos que se lançam janela afora e voam na incerteza do concreto

A esperança é o corpo que se equilibra no fio de cabelo solto ao vento da tempestade de fim de verão...

Palavras efêmeras

terça-feira, 19 de junho de 2018

Pele. Mente.


A pele desenha o corpo em uma dimensão sem noção.

Cada corpo com sua pele
Cada pele com seu corpo

A percepção do mundo e do próprio corpo se dá na pele, é o contado do interno com o externo
É o contato do corpo com outros corpos

Na pele, poros
Entrada e saída da curiosidade, dos sentimentos e das sensações
Entrada e saída dos desejos

Na pele... 
Fluxo da vida

É na pele que se experimenta o mundo e suas diversidades
É a pele que protege e revoluciona o corpo

Na pele... Marcas.
Na pele... Cicatrizes.
Na pele... Escrituras.

Escrituras que,  no tempo e no espaço, foram marcando experiências.
As escrituras na pele revelam memórias de ancentralidade que iniciou no útero.

terça-feira, 20 de março de 2018

Olho. Olhares. Olho.

Olhos. Olhares. Olhos.

Pelas ruas, nos ônibus…
Só quero ser quem sou!

A saia veste o corpo
deixando-o leve e livre
A saia junto ao corpo, dança as dores no percurso da caminhada.

Nas ruas, nos ônibus..
Pessoas! Olhares!
Olhares de julgamento.
Olhares de preconceito.

Violentos Olhares.

Os olhares
Percorrem o meu corpo…

Estranho!?
Corpo colorido!?

Os olhares,
Sem pedir licença,
Atravessam a saia, o corpo 

A cada olhar, uma ferida.

A cada olhar, uma dor.

A cada olhar…

Um olhar consume o corpo, como se fosse um objeto, uma coisa sem sentimento, sem emoção, sem sentido.

Os Olhares, estupram, rasgam o corpo

Esquisitice!!!
As unhas pintam arco-íris.

Os olhares penetram o corpo, deixando-o nú.
Os olhares matam!

No corpo, saia.
No corpo, cores
No corpo, corpo…

Só quero ser quem sou.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Corpo, Pele

Corpo,
Caminha…
A cada passo uma sensação

Corpo,
Dança…
Pelo espaço busca o inexplicável

Corpo,
Aos pouco vai endurecendo
Aos pouco sua dança, seu movimento vai parando
Aos pouco sua pele, feita barro, seca e racha
E das rachaduras, feridas

Corpo,
Parado, insensível, intocável

Corpo,
Parado, inseguro

Corpo,
Parado se movimenta

Corpo…
Do profundo intimo do corpo
A água viva surge
Do profundo mais profundo do corpo
A água movimenta
Do mais profundo do corpo
A água perfura, penetra, habita cada espaço endurecido do corpo

Corpo…
Do mais profundo do corpo
A água viva vai se espalhando, se infiltrando, umedecendo o corpo

Corpo.
Na pele rachada, brota a nascente…
Na pele rachada surge a água viva, que escorre pelas rachaduras, trazendo vida para as feridas.

Na pele a água escorre, criando rios, que seguem por todo o corpo.
Esperando o momento de se lançar ao mar…

Na pele o corpo sente, dança e vive.
Na pele o corpo… Corpo. 

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Dança livre do corpo


Diariamente
Acordado ou dormindo
No concreto ou no abstrato
Na loucura ou na lucidez
No profano ou no sagrado
Nosso corpo dança
Dança o ritmo
do caminhar
do correr
do balançar do ônibus
do ritmo, sem ritmo
No molejo duro do corpo,
o corpo dança

Ser


Cinza,
Escuro,
Preto.
Sem identidade
O sujeito feito de história
Se perde no concreto certo da sociedade.
Em seu corpo, introjetam os saberes que não o serve
Em seu corpo introjetam o esquecimento de sua origem
Em seu corpo introjetam a cultura branca, a roupa branca, a língua branca
Em seu corpo, violenta seu ser, sua identidade, seus desejos e prazeres
Em seu corpo fica a ferida exposta
Do ser que deixou de ser
E passou apenas a reproduzir
Reproduzir a alienação de tudo aquilo que não o serve
De tudo aquilo que não servirá a ninguém.

Arrepio de Morte

Arrepio de morte.
Preso
A cultura da punição.
Segue o corpo preso.
Preso
As leis ambíguas e sem garantia.
Segue o corpo preso.
Preso.
Violentado, machucado,
Corpo ao frio, sente as feridas sangrarem.
Arrepio de morte.
Preso
"Menor". Negro. Pobre. Favelado. Sem direito à vida.
Segue o corpo preso.
Preso
A desigualdade social
Segue o corpo preso
Preso
A sociedade meritocrática, capitalista, neoliberal. Que mata, tortura, rouba e cria ilusões as almas perdidas, que luta pela existência.
Segue o corpo preso.
Preso. Preso. Preso
Talvez o corpo vai sem rumo. Ou com um rumo já decidido, pela moralidade e normalidade da sociedade.
Mas assim vai o corpo sempre preso. Amarrado. Pelo tradicionalismo. Preso as grades, marginalizado pelo desejo de consumo. Preso pelo o não poder viver livre.
Cada corpo Em seu corpo,
Caminha nesta vida sentido,
Sentindo a solidão.
A solidão de cada alma deixando seus corpos...
Arrepio de morte.